É justamente em torno dessa fotografia que gira A Conquista da Honra. O filme aborda a batalha de Iwo Jima sob o ponto de vista dos norte-americanos, mais precisamente daqueles que aparecem na imagem, marcando território no monte Suribachi. Quando o governo dos EUA percebeu que a foto, com seu inegável tom épico, seria uma ferramenta eficaz para angariar apoio popular e financeiro para a guerra, os combatentes clicados foram retirados do campo de batalha e requisitados para viajar pelo país posando como heróis. E aí nasce a contradição. Primeiro, eles não estavam convencidos da suposta condição de heróis; segundo, sabiam que a guerra para a qual estavam servindo como garotos-propaganda era, na verdade, um inferno.
Em Cartas de Iwo Jima, você é convidado a ver a batalha das trincheiras japonesas. O roteiro é baseado nas cartas que o comandante Tadamichi Kuribayashi escreveu a sua família, que só recentemente vieram a público. O drama é fundamentado no fim iminente: os japoneses são minoria e, em determinado momento, são avisados pelo governo que não receberão mais reforços. Resta o objetivo de morrer com honra.
A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima são grandes filmes porque abordam o tema da guerra com maturidade e inteligência. Não há mocinhos nem bandidos. O conflito é mostrado como algo terrível, muito acima das particularidades da vida de cada indivíduo. E a grande discussão que se levanta tem tudo a ver com questões atuais, como a Guerra do Iraque, na qual jovens norte-americanos são enviados para lutar muito longe de casa.
O Caminho para Guantánamo (Michael Winterbottom e Mat Whitecross - 2006) Três britânicos de 20 e poucos anos viajam para o Paquistão, onde um deles iria se casar, e acabam presos e torturados pelo Exército norte-americano durante dois anos, sem que haja nenhuma prova contra eles. Essa é a assustadora história real contada em O Caminho para Guantánamo, filme que mescla imagens documentais - incluindo depoimentos dos protagonistas - com encenações.
Os rapazes, de origem paquistanesa, chegam ao país asiático em outubro de 2001, mês em que a coalizão militar formada por norte-americanos e britânicos começa a bombardear o vizinho Afeganistão, cujo governo estaria dando proteção ao terrorista Osama bin Laden, acusado de promover os atentados de 11 de setembro. Inspirados pela pregação de um líder muçulmano, os amigos vão ao Afeganistão se solidarizar, pacificamente, com a população do país. Acabam sendo confundidos com guerrilheiros islâmicos, capturados e enviados à prisão na base militar norte-americana de Guantánamo, em Cuba.
Lá, são tratados de maneira desumana: não podem falar, exercitar-se, nem sequer se proteger do sol. Em uma das sessões de tortura a que são submetidos, ficam acorrentados ao chão com os braços entre as pernas, sozinhos em salas sem luz e com um som ensurdecedor durante horas. Apesar de serem acusados com provas nitidamente falsas e de possuírem álibis, só são liberados após dois anos. O Caminho para Guantánamo é um relato perturbador sobre a injustiça, sob medida para quem se preocupa em conhecer o mundo como ele é.
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburger - 2006) Um dos melhores filmes nacionais de 2006, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é uma boa oportunidade para conhecer a época da ditadura militar brasileira sob um ângulo incomum. O filme conta a história de Mauro, um menino de 12 anos cujos pais são militantes contrários ao regime. Com a explicação para o menino de que saíram de férias, eles passam um longo período na clandestinidade, deixando-o aos cuidados do avô, no Bom Retiro, bairro judeu de São Paulo. O avô, porém, logo morre, e Mauro passa a ser criado pelos vizinhos, o que acaba se tornando uma inesquecível experiência de amadurecimento.
A história humana é engrandecida pelos seus panos de fundo contraditórios: a nada saudosa repressão imposta pelo regime militar e a celebrada seleção brasileira da Copa do Mundo de 1970, com craques como Pelé, Jairzinho, Gerson e Tostão, que inspira boas lembranças até mesmo para quem não viveu naquela época. Informativo e emocionante, sem ser professoral nem piegas, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é uma obra imperdível.
Obrigado por Fumar (Jason Reitman - 2006) Esse é um daqueles grandes filmes que nos fazem pensar sobre questões políticas relevantes - no caso, a manipulação de informações - da maneira mais agradável possível: rindo. O protagonista, Nick Naylor, é o porta-voz das indústrias de tabaco dos Estados Unidos. É ele, por exemplo, que vai a programas de auditório defender o cigarro diante de médicos e vítimas de câncer de pulmão. E consegue. Com artimanhas que arrancam risos da platéia, ele dá um nó na cabeça dos outros personagens. Você não termina de ver o filme achando que fumar faz bem para a saúde - essa definitivamente não é a intenção -, mas entende, se assusta e se diverte com o tremendo poder da retórica e do lobby político.
Mais filmesBoa Noite e Boa Sorte
(George Clooney – 2005)
O clima de tensão instalado pelo “macarthismo” nos Estados Unidos.
Jarhead
(Sam Mendes – 2005)
O pavor e a desinformação dos soldados norte-americanos na Guerra do Golfo.
Munique
(Steven Spielberg – 2005)
A caça aos palestinos que mataram 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972.
O Senhor das Armas
(Andrew Niccol – 2005)
Um traficante de armas despista a Interpol para alimentar guerrilhas e criminosos.
Paradise Now
(Hany Abu-Assad – 2005)
Os sentimentos experimentados por dois homens-bomba palestinos em Israel.
Syriana – A Indústria do Petróleo
(Stephen Gaghan – 2005)
O poder das companhias petrolíferas e a complexa rede de influências do mercado do “ouro negro”.
A Queda! As Últimas Horas de Hitler
(Oliver Hirschbiegel – 2004)
Um retrato do ditador nazista nos últimos momentos de sua vida, confinado num bunker.
Hotel Ruanda
(Terry George – 2004)
Em 1994, um gerente de hotel salva mais de mil tutsis do genocídio deflagrado por hutus em Ruanda.
Maria Cheia de Graça
(Joshua Marston – 2004)
Jovem colombiana pobre e grávida aceita traficar drogas para Nova York dentro do próprio corpo. A trama reflete o drama da pobreza e o da falta de opções, que levam habitantes de países pobres a ver na migração para os EUA uma perspectiva de vida.
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