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O poema "Poética" funciona como uma espécie de manifesto:
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário
[público com livro de ponto
[expediente protocolo
[e manifestações
[de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo
[que pára e vai averiguar
no dicionário o cunho
[vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo
[os barbarismos universais
[Todas as construções
sobretudo as sintaxes [de exceção
Todos os ritmos
[sobretudo os inumeráveis
Estou farto
[do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula
[ao que quer que seja
[fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade
[tabela de co-senos secretário
[do amante exemplar
[com cem modelos de cartas
[e as diferentes maneiras
[de agradar às mulheres, etc.
Quero antes
[o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil
[e pungente dos bêbados
O lirismo
[dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber
[do lirismo que não é libertação.
Nesse poema, valendo-se da metalinguagem, Bandeira prega uma arte universal que valoriza a expressão poética da palavra. Ao mesmo tempo, como bom modernista, recusa tanto a poesia burocrática, contida no plano formal e sentimental do parnasianismo, quanto a poesia demagógica e debilitada do romantismo.
Entretanto, o poeta soube equilibrar as inovações com a tradição, como ocorre no famoso "Vou-me Embora pra Pasárgada", composto de redondilhas maiores (sete sílabas poéticas):
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Característica fundamental da poética de Bandeira, vários dos seus poemas são de caráter confessional, como esse "Vou-me embora pra Pasárgada". Ao contrário de seus contemporâneos, o autor de Libertinagem, de forma autobiográfica, expõe sua melancolia, fruto da condição de homem desenganado pela medicina - já que, aos 18 anos, contraiu tuberculose, doença mortal na época. Sua vida inteira foi uma longa e
solitária espera pela morte, que, no poema citado, o eu-lírico extravasa na forma do escapismo, em busca da felicidade. No entanto, em vez da evasão utópica da poesia romântica, Bandeira deseja o prazer nas coisas simples da vida.
Outra forma de fuga em seus poemas é o recurso às lembranças de infância. "Porquinho-da-índia" é um exemplo disso. A simplicidade do lirismo e o tom levemente irônico levam o poeta a relembrar uma epifania, uma revelação despertada por uma experiência pueril e prosaica, mas, ao mesmo tempo, bela e comovente:
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
No belo "Evocação do Recife", as recordações do tempo de criança misturam-se a comentários sobre a vida da gente simples e as transformações ocorridas na cidade:
(...)
Rua da União...
Como eram lindos os nomes
[das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se
[chame do Dr. Fulano de Tal)
(,,,)
A vida não me chegava pelos
[ jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo
[na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso
[o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
(...)